A língua japonesa pode a principio parecer muito complicada ou até impossível para nós brasileiros. Isso é porque ela é uma língua muito diferente do português. Além disso não estamos acostumados a ver japonês escrito por aí, como acontece com o inglês.

Por isso vou apresentar algumas características marcantes da língua japonesa. Você pode até já saber delas, mas será que já parou para pensar nelas conscientemente?

Saber esses pontos é importante, tanto para você que ainda não começou a estudar japonês, como para você que começou agora, e até mesmo para você que já estuda há alguns anos.

Algumas dessas características facilitam muito a nossa vida, mas outras dificultam… Por isso atenção!

Antes de começar, uma pista: internalizar esses pontos tem muito a ver com a nossa atitude.

CARACTERÍSTICA 1: A FALTA DO GÊNERO

Nós brasileiros já estamos mais do que acostumados a dar gênero para as coisas. Não faz o menor sentido e deixa os gringos que querem aprender português totalmente MALUCOS. O coração é masculino, mas a canção é feminina, etc.

Felizmente não temos que lidar com isso em japonês. Além de não se atribuir gênero aos objetos, não existe a necessidade de concordância de gênero quando usamos adjetivos. Veja o exemplo:

娘は背が高いです。息子も背が高いです。
Musume wa se ga takai desu. Musuko mo se ga takai desu.

“Minha filha é alta. Meu filho também é alto”

Nesse exemplo vemos que a palavra 背が高い, que se refere a altura, não muda mesmo que a coloquemos junto a uma palavra que se refere a uma mulher ou a um homem.

Dito isso, em japonês existem palavras próprias e diferentes para se referir a mulheres ou homens. Como por exemplo:

彼氏 (kareshi) – Namorado
彼女 (kanojo) – Namorada

看護婦 (kangofu) – Enfermeira
看護師 (kangoshi) – Enfermeiro (ou enfermeira)

Mesmo assim, essas palavras não exigem nenhuma concordância dos adjetivos nem dos verbos para serem usadas.

Isso facilita muito a nossa vida, não?

CARACTERÍSTICA 2: A FALTA DO PLURAL

Em japonês não se usa plural como usamos no português. Em portugês atentamos muito para a quantidade das coisas e tudo na frase precisa concordar com isso. Mas em japonês não é necessário fazer isso, observe as frases:

色々な店にいって、ワンピースを10枚買いました。
Iroiro na mise ni itte, wanpiisu wo 10 mai kaimashita.
Fui em muitas lojas e comprei 10 vestidos.

あの店に行って、ワンピースを買いました。
Ano mise ni itte, wanpiisu wo kaimashita.
Fui naquela loja e comprei um vestido.

Perceba que a palavra 店 e a palavra ワンピース continuam as mesmas, mesmo que a quantidade mude de singular para plural.

Agora veja este outro exemplo.

私は7時に起きます。
Watashi wa 7 ji ni okimasu.
Eu acordo às 7 horas.

両親は7時に起きます。
ryoushin wa 7 ji ni okimasu.
Meus pais acordam às 7 horas.

Perceba que nesse caso, meso quando o sujeito passou de uma pessoa “eu”, para duas pessoas “meus pais”, o verbo 起きます, acordar, permaneceu o mesmo. Pois os verbos não são afetados por mudança de número.

Veja então este último exemplo:

娘は医者になりました。
Musume wa isha ni narimashita.
Minha filha se tornou médica.

娘たちは医者になりました。
Musumetachi wa isha ni narimashita.
Minhas filhas se tornaram médicas.

Novamente podemos observar que os verbos não se modificaram nem um pouco. Mas também podemos observar que na palavra filha, 娘, foi adicionado たち, na frase que estava no plural. O たち é uma espécie de sufixo que indica o plural.

Na verdade o たち é um sufixo muito curioso, pois pode ser usado de um jeito inusitado. Por exemplo, imagine uma turma em uma escola. Essa turma vai sair para uma excursão amanhã. Para ajudar o professor, é eleito um representante de classe. Vamos chamar ele de Yamada. O professor então fala que vai esperar a turma do Yamada às 10 horas no ponto combinado.

じゃ、明日10時に山田さんたちを待ちますね。
Jya, ashita 10 ji ni Yamada-san tachi wo machimasu ne.
Então vou esperar vocês amanhã às 10 horas.

Percebam que foi usado たち logo depois do nome do Yamada. Como ele é o representante do grupo, serve também como líder na frase. 山田たち é literalmente “o grupo do Yamada”.

Isso é bastante usado em japonês e acaba ficando um pouco engraçado em português se for traduzido literalmente.

Este é um caso onde o plural aparece um pouquinho na língua japonesa.

CARACTERÍSTICA 3: FORMALIDADE

Quando começamos a estudar japonês, logo percebemos que existem muitos jeitos de se falar a mesma coisa. Por exemplo:

めしくった?
Meshi kutta?

ご飯食べた?
Gohan Tabeta?

ご飯食べましたか。
Gohan tabemashitaka?

お食事を召し上がりましたか。
Oshokuji wo meshiagarimashitaka?

Todas estas frases significam a mesma coisa “você comeu?”. Note que a palavra “você” não consta nas frases em japonês, mas está subentendida.

A diferença destas frases está no grau de formalidade. A primeira é a mais informal e a última é a mais formal. Muitas pessoas que começam a estudar japonês acham a línguagem formal e polida japonesa muito complicada de aprender, pois se diferencia da línguagem polida do português brasileiro.

Em português, nós medimos o grau de formalidade usando palavras específicas para cada caso. Por exemplo, dizer “você gostaria” em vez de “você quer” já soa bem diferente aos nossos ouvidos.

Mas em japonês não só novas palavras são introduzidas, como algumas estruturas são modificadas. Veja o exemplo:

帰る?
Kaeru

帰りますか。
Kaerimashuka?

お帰りになりますか。
Okaerininarimasuka?

As três frases significam “você vai embora?” Sendo que  a primeira é informal, a segunda é formal e a terceira é bastante formal.

Os japoneses usam diversos níveis de formalidade durante o dia a dia. Tudo depende de com quem estão falando e do lugar onde se encontram. O formato das estruturas pode parecer diferente para nós brasileiros, mas o conceito de “palavras apropriadas para a ocasião” não nos é estranho.

CARACTERÍSTICA 4: OS CONCEITOS DE GRUPOS

Os japoneses têm um forte senso de coletivo. Isso se reflete no modo como usam o próprio idioma. Para entender melhor, é preciso entender o que é Uchi e o que é Soto.

Trata-se de um conceito pode parecer estranho para nós que estamos acostumados com a cultura brasileira, mas basta tentarmos focar no modo que os japoneses enxergam a sociedade como um todo e ele se torna fácil de compreender.

Para explicar, vou usar um exemplo simples. Sabe a sua família? Você considera que você e sua família são um só? Ou vocês são seres separados? Bom, perante a sociedade, os japoneses consideram que o grupo ao qual pertencem e eles próprios como indivíduos são uma coisa só.

E o que isso gera na prática?

Vamos retomar o exemplo da família. Em japonês, quando você se dirige à sua família, deve usar tratamentos de respeito. Quando se dirige a família dos outros, também deve usar tratamentos de respeito. Mas curiosamente, quando fala sobre a sua família para os outros (que não são parentes), não se usa tratamentos de respeito.

Por exemplo, imagine a seguinte situação. A minha mãe vai sair. A vizinha quer saber que horas a minha mãe volta para casa:

Vizinha: お母さんは何時に帰りますか。
Okaasan wa nanji ni kaerimasuka?
Que horas a sua mãe volta?

Como eu não sei, tenho que perguntar para a minha mãe:

Eu: お母さん、何時に帰りますか。
Okaasan, nanji ni kaerimasuka?
Mãe, que horas a Sra. volta?

Minha mãe responde que volta as 5 horas.

Então eu respondo para a vizinha:

母は5時に帰ります。
Haha wa 5 ji ni kaerimasu.
Minha mãe vai voltar as 5 horas.

Neste caso quando a vizinha perguntou da minha mãe, usou a palavra お母さん (de respeito), quando eu falei com a minha mãe, usei também お母さん(novamente respeito). Mas quando falei da minha mãe para a vizinha, usei 母, que não carrega nenhum tipo de respeito.

Mas por que isso?

O motivo é que devido ao conceito de que a sua família e você são considerados um só, se você usar tratamentos de respeito para falar sobre a sua família para os outros é como se estivesse usando tratamento de respeito para falar de você mesmo.

E ninguém usa tratamento de respeito para falar de si mesmo, certo? Parece que você está sendo metido, orgulhoso demais, ou até mesmo esquisito.

Neste caso a sua família, o seu grupo, é o seu uchi. Os outros, as pessoas de fora, são soto.

Outro exemplo importante de uchi e soto é dentro das empresas. Quando você está se relacionando e conversando entre os funcionários da empresa que você trabalha, os tratamentos de respeito devem ser utilizados. Quando fala sobre os funcionários de outra empresa, os tratamentos de respeito também devem ser utilizados. Mas quando se fala a sobre os funcionários da sua empresa para pessoas de fora, não se usa tratamentos de respeito. Mais uma vez, como a sua empresa é o seu uchi, é considerada como uma extensão de você.

Vale lembrar que esta é uma regra de etiqueta social. Nem todos os japoneses se sentem confortáveis ou conseguem aplicar esta regra corretamente. É muito comum ver adolescentes e crianças usando erroneamente o tratamento de respeito ao falarem dos pais para pessoas que não são uchi, ou ainda pessoas jovens que são novas nas empresas, erroneamente utilizando os tratamentos de respeito para falar sobre seus chefes para pessoas de outras empresas.

Quanto mais você souber utilizar esta regra, mais será reconhecido como alguém que entende bem a cultura japonesa.

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